PICADEIRO BRASIL

Trocando os Acordes

Salada Étnica e o Disk-Pizza

 Paulo Flores

 

A MPB Instrumental , traz na sua essência todas as heranças étnicas culturais dos povos que aqui se fixaram, sendo assim um dos fatores mais agregadores da constituição do povo brasileiro. Raça é uma designação a algum tipo de agrupamento animal, que, juntos, encontram mais facilidades de perpetuar os seus interesses e necessidades. A espécie humana, vem, através dos tempos, se agrupando de várias formas por todo o planeta, sempre em busca da sobrevivência, de si mesmo e do seu grupo. Com as aquisições feitas, pela inserção de novos elementos ao grupo, as características físicas e culturais vão se modificando criando, assim, através das  gerações, uma série de mudanças evolutivas, onde cada vez mais o indivíduo fica melhor adaptado ao meio. Transferindo esta premissa para o universo cultural, vemos a degradação dos meios e a involução da arte, no caso a música pura. Das tradições das nossas bandas de coretos, bandas sinfônicas, grupos de choro, grupos instrumentais em geral, só restou a luta por subsídios para se manterem vivas, produzindo. Onde, em que lugar da nossa consumista sociedade atual encontramos algum espaço para a manifestação da arte pura, esta arte sem compromissos com nada que não seja a própria expressão artística. Vemos os meios de comunicação tomados por aproveitadores de uma legislação que isenta os religiosos e com isso massificam a crença; vemos os meios de comunicação tomados de voyers, e com isso massificam a intromissão e transformam a fofoca e o "meter o bedelho na vida alheia", em esporte nacional; vemos os meios de comunicação tomados por um estertor de mediocridade, onde o indivíduo é tratado como um grande imbecil, sem opção, massificado pelos padrões aproveitadores de plantão. A massificação é coisa para padeiros, cantinas, doceiras e até paredes, mas nunca para o pensamento das pessoas. O direito ao conhecimento e a opção, tem de ser exercido para que um indivíduo seja integro de seus poderes como cidadão. Cidadania é escolha, e dar opção à escolha é obrigação de uma sociedade decente. Será esta a nossa realidade cultural? Será que os donos da mídia, do poder, acreditam que o povo é desprovido de critério? Alguns, talvez, mas todo ele, de norte a sul? Alguém disse, creio até que foi Churchill, “Podemos enganar alguns o tempo todo, todos por algum tempo, mas jamais, todos o tempo todo!” Cidadania! Direito constitucional! Direito EXISTENCIAL! Onde fica o Habitat do homem, a reserva onde esta espécie existe, vive, se reproduz e se perpetua? Onde é o nosso lugar, o meio ambiente adequado a nós, humanos?   Seres comuns, que desejam conviver com seus simples e cotidianos sonhos, que desejam contar em prosa, verso ou em música suas dores e seus amores? Tomaram conta do nosso habitat! Lotearam cada cm2 de tudo a nossa volta, e nos deixaram a opção de escolha: “Vai tu ou tu mesmo!” Hoje vivemos a indecência cultural onde tratam o cidadão como farinha do mesmo saco, com sua arte disk-pizza e o sonho delivere. Entregamos já, em sua porta! Você pode adquirir nossos produtos pelo cartão ou reembolso postal, aceitamos também vales transporte e refeição:

 

A)  Beleza Instantânea -  e de brinde você leva o Kit-Faça-Você-Mesmo – O Super-Ego;

B) Fama e Fortuna - e de brinde você leva o Kit-Faça-Você-Mesmo – Ambição Desenfreada - e Boneco Mascote – Fuck you!;

C)  Como vencer na vida sem fazer nada – e de brinde você leva o Kit-Fazem-Por-Você – Uma Cadeira no Congresso.

 

Será que os povos que aqui estavam, os que aqui chegaram, com a renovação dos que aqui nasceram, com a força dos negros, que imperdoavelmente de seus lares foram arrancados,  mas aqui ficaram, será que onde se cultivou a maravilhosa maneira de incorporar todas as correntes numa grande salada étnica, com sabor de caipirinha, vai se transformar nisso?  De salada a pizza? 

(Paulo Flores é maestro, compositor e arranjador. Coordenador da Área de MPB e Jazz do Conservatório de Tatuí.)