III FESTIVAL BRASIL INSTRUMENTAL

Salada Étnica e o Disk-Pizza

 Paulo Flores

 

A MPB Instrumental , traz na sua essência todas as heranças étnicas culturais dos povos que aqui se fixaram, sendo assim um dos fatores mais agregadores da constituição do povo brasileiro. Raça é uma designação a algum tipo de agrupamento animal, que, juntos, encontram mais facilidades de perpetuar os seus interesses e necessidades. A espécie humana, vem, através dos tempos, se agrupando de várias formas por todo o planeta, sempre em busca da sobrevivência, de si mesmo e do seu grupo. Com as aquisições feitas, pela inserção de novos elementos ao grupo, as características físicas e culturais vão se modificando criando, assim, através das  gerações, uma série de mudanças evolutivas, onde cada vez mais o indivíduo fica melhor adaptado ao meio. Transferindo esta premissa para o universo cultural, vemos a degradação dos meios e a involução da arte, no caso a música pura. Das tradições das nossas bandas de coretos, bandas sinfônicas, grupos de choro, grupos instrumentais em geral, só restou a luta por subsídios para se manterem vivas, produzindo. Onde, em que lugar da nossa consumista sociedade atual encontramos algum espaço para a manifestação da arte pura, esta arte sem compromissos com nada que não seja a própria expressão artística. Algo como a aclamada, pelo menos por nós,  permissividade cultural. Isto seria a não interferência dos "curadores" no meio cultural, impondo a este as suas verdades estéticas, assim, de cima para baixo. Traço sempre um paralelo entre meio cultural e  meio de bactérias, um ambiente prolífero enquanto se mantiver dentro das suas características, equilibrado, dando-se boas condições, cresce, cresce, sem parar. Na ora que os "curradores" entram com suas imposições, suas condições casuísticas, o estupro cultural é inevitável, levando assim ao fim desta espécie, como vemos em larga escala no meio ambiente, destruição. Sentimos um vazio enorme ao vermos o que se perdeu, ou pelo menos se escondeu de nós nestes últimos trinta e tantos anos, como perdemos a continuidade de uma cultura que estava fluindo naturalmente, se adaptando aos novos meios de mídia, parecia algo mais sincero, algo menos Shwarznegger...  Vemos os meios de comunicação tomados por aproveitadores de uma legislação que isenta os religiosos e com isso massificam a crença; vemos os meios de comunicação tomados de voyers, e com isso massificam a intromissão e transformam a fofoca e o "meter o bedelho na vida alheia", em esporte nacional; vemos os meios de comunicação tomados por um estertor de mediocridade, onde o indivíduo é tratado como um grande imbecil, sem opção, massificado pelos padrões aproveitadores de plantão. A massificação é coisa para padeiros, cantinas, doceiras e até paredes, mas nunca para o pensamento das pessoas. O direito ao conhecimento e a opção, tem de ser exercido para que um indivíduo seja integro de seus poderes como cidadão. Cidadania é escolha, e dar opção à escolha é obrigação de uma sociedade decente. Será esta a nossa realidade cultural? Será que os donos da mídia, do poder, acreditam que o povo é desprovido de critério? Alguns, talvez, mas todo ele, de norte a sul? Alguém disse, creio até que foi Churchill, “Podemos enganar alguns o tempo todo, todos por algum tempo, mas jamais, todos o tempo todo!” Cidadania! Direito constitucional! Direito EXISTENCIAL! Onde fica o habitat do homem, a reserva onde esta espécie existe, vive, se reproduz e se perpetua? Onde é o nosso lugar, o meio ambiente adequado a nós, humanos?   Seres comuns, que desejam conviver com seus simples e cotidianos sonhos, que desejam contar em prosa, verso ou em música suas dores e seus amores? Tomaram conta do nosso habitat! Lotearam cada cm2 de tudo a nossa volta, e nos deixaram a opção de escolha: “Vai tu ou tu mesmo!” Hoje vivemos a indecência cultural onde tratam o cidadão como farinha do mesmo saco, com sua arte disk-pizza e o sonho delivere. Entregamos já, em sua porta! Você pode adquirir nossos produtos pelo cartão ou reembolso postal, aceitamos também vales transporte e refeição. Houve tempos em que se vendiam indultos, por uma graninha rolava até um pedacinho do céu. Parece que nada mudou, tá cheio de espertalhões de plantão, negociando com tudo, qualquer coisa principalmente sua alma, Disk-Mefisto....Será que os povos que aqui estavam, os que aqui chegaram, com a renovação dos que aqui nasceram, com a força dos negros, que imperdoavelmente de seus lares foram arrancados,  mas aqui ficaram, será que onde se cultivou a maravilhosa maneira de incorporar todas as correntes numa grande salada étnica, com sabor de caipirinha, vai se transformar nisso?  De salada a pizza? 

(Paulo Flores é compositor e arranjador. Coordenador da Área de MPB e Jazz do Conservatório de Tatuí.)

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